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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Benedito Ruy Barbosa morreu na manhã desta terça-feira, 7 de julho de 2026, aos 95 anos, no Hospital do Coração, em São Paulo. A causa foi uma complicação de insuficiência renal crônica, doença que ele tratava havia cerca de três anos e que já o havia levado à internação em janeiro. Com ele se despede uma das assinaturas mais longas da televisão brasileira, autor de novelas que atravessaram gerações e mudaram a forma como o país se via na tela.
Para entender o tamanho dele, ajuda começar pelo começo, bem longe dos estúdios.
Benedito nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 17 de abril de 1931, o mais velho de cinco irmãos. Cresceu na cidade vizinha, Vera Cruz, em meio a cafezais e à convivência com imigrantes italianos e japoneses. Esse cenário voltaria mais tarde, com detalhes, em O Rei do Gado. O pai, Otávio, fundou e dirigiu o jornal A Voz de Vera Cruz até morrer, aos 29 anos, em 1942. A perda mudou a vida do filho, que virou órfão aos doze e precisou trabalhar cedo para ajudar a mãe.
Antes de escrever para a TV, ele foi de tudo um pouco. Auxiliar de guarda-livros, vendedor, faxineiro. Em 1954, entrou como revisor no Estado de S. Paulo depois de passar num concurso, e seguiu como repórter esportivo na Última Hora e na Gazeta Esportiva, além de redator publicitário. A guinada para a dramaturgia veio em 1959, com a peça Fogo Frio, montada pelo Teatro de Arena de São Paulo, que lhe rendeu o prêmio de autor revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte.
Na televisão, começou em 1966, com Somos Todos Irmãos e O Anjo e o Vagabundo, ambas na extinta TV Tupi. A chegada à Globo aconteceu em 1971, com Meu Pedacinho de Chão, uma coprodução com a TV Cultura ligada ao esforço de alfabetização e que ajudou a inaugurar o horário das seis da emissora. A trama sofreu cortes da censura durante a ditadura militar, mas ele negociou a manutenção de algumas cenas. O universo fantástico que imaginou para essa história só sairia inteiro décadas depois, no remake de 2014.
Em 1976 veio o primeiro contrato de peso com a Globo e a estreia oficial na casa, com O Feijão e o Sonho, adaptação do romance de seu amigo Orígenes Lessa. A novela das seis foi ao ar entre junho e outubro daquele ano e contava a vida do casal Campos Lara, o poeta sonhador e a esposa prática, dividida em quatro fases entre Sorocaba, o Bixiga paulistano, Santa Catarina e a capital. A produção enfrentou de tudo, do incêndio na sede da Globo, que jogou as gravações para os estúdios da TV Educativa, ao infarto do protagonista Cláudio Cavalcanti.
O que sobrou no cotidiano do público foi o próprio título. Numa época de carestia, "o feijão é o sonho" virou piada corrente nos mercados, um trocadilho sobre o preço dos alimentos que a revista Amiga registrou ainda em outubro de 1976. Uma novela sobre poesia e sobrevivência acabou emprestando frase para a conversa sobre a comida no fim do mês.
O episódio mais famoso da carreira dele talvez seja uma recusa. Benedito ofereceu a sinopse de Pantanal à Globo diversas vezes ao longo dos anos 1980, e a emissora sempre disse não, alegando custo e dificuldade de gravar na região. Quem topou o risco foi a Rede Manchete. Estreou em março de 1990, tímida, com 7 pontos. Em poucas semanas passou a liderar, algo raríssimo fora da Globo, e chegou a picos acima de 40 pontos, com média geral de 22. O último capítulo cravou 31 pontos contra 21 da concorrente no mesmo horário.
O sucesso mexeu com o mercado inteiro. A Globo esticou a exibição de Rainha da Sucata para segurar o público e lançou Araponga para brigar de frente. Roberto Marinho chegou a minimizar o fenômeno na imprensa, embora, segundo o próprio autor, o incômodo maior fosse ter deixado a novela escapar. Pantanal firmou um jeito de contar histórias, com planos abertos e a natureza como personagem, que ecoaria em várias tramas dos anos seguintes.
Depois do estrondo de Pantanal, ele voltou à Globo. Escreveu Renascer em 1993, sua estreia no horário nobre, ambientada na região cacaueira da Bahia. E em 1996 assinou O Rei do Gado, que virou marco. A novela levou para as nove da noite o conflito pela terra, a concentração fundiária, a violência no campo e a organização dos trabalhadores sem terra, temas que quase nunca ocupavam o centro da TV aberta. Estreou dois meses depois do massacre de Eldorado dos Carajás, o que amarrou ficção e realidade de um jeito incomum.
A repercussão foi grande. Nos números, O Rei do Gado teve média de 52 pontos, marca que ninguém alcançou por muitos anos depois, e foi eleita a melhor novela de 1996 no Troféu Imprensa. A trilha bateu recorde de vendas.
O ciclo dos grandes sucessos se fechou com Terra Nostra, em 1999, que retomou a imigração italiana pela história de Matteo e Giuliana e alcançou público dentro e fora do Brasil. A última novela como autor principal foi Esperança, em 2002, que ele deixou pelo meio por problemas de saúde, sendo substituído por Walcyr Carrasco. Ainda voltaria ao horário nobre uma vez, em 2016, com Velho Chico, ambientada às margens do rio São Francisco.
O que ele construiu não parou de circular. As filhas Edmara e Edilene Barbosa adaptaram remakes de Cabocla, Sinhá Moça e Paraíso. O neto Bruno Luperi assinou as regravações de Pantanal, em 2022, e de Renascer, em 2024, mantendo viva uma linguagem que começou com o avô. Benedito foi casado por 56 anos com a atriz Marilene Leonor Barbosa, morta em 2014, e deixa quatro filhos e dez netos. Recebeu ao longo da vida diversas honrarias, entre elas a Ordem do Mérito Cultural.
Para quem acompanhou essas novelas quando foram ao ar, este é um bom momento para revisitar o que ficou. Pantanal e O Rei do Gado estão disponíveis em reprises e no catálogo de streaming da Globo, e reassistir a um capítulo com o olhar de hoje costuma revelar o quanto essas histórias anteciparam debates que seguem vivos.
Para quem chegou pela geração dos remakes, vale conhecer as versões originais. A Pantanal de 1990 e a de 2022 conversam entre si, e comparar as duas ajuda a enxergar tanto a permanência da história quanto o que mudou na televisão em três décadas.
Para quem gosta de entender o país pela cultura, a obra dele funciona como um mapa. O interior, a imigração, a terra e o trabalho aparecem ali não como paisagem decorativa, e sim como o assunto. Ler sobre a recepção de O Rei do Gado, por exemplo, mostra como uma novela pode entrar na conversa pública sem deixar de ser entretenimento.
Benedito Ruy Barbosa transformou o Brasil rural, que a TV costumava tratar como cenário pitoresco, no centro das suas tramas. Fez isso por seis décadas, com personagens de contorno claro e histórias que mistuvavam romance, terra e trabalho. A recusa de Pantanal virou lição sobre coragem editorial, e a família que ele formou garante que sua linguagem continue chegando a públicos que nem eram nascidos quando ele começou. Fica a obra, que segue disponível e continua encontrando gente nova para assistir.
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